ASCENSÃO DO MONT VENTOUX
Manuel Valente Alves
A instalação “Ascensão do Mont Ventoux” é composta por fotografias, desenhos e pinturas da minha autoria, realizados entre 1990 a 2025, que estabelecem um diálogo direto com a carta homónima de Petrarca (Ascensus Montis Ventosi), escrita em 1336, através da reinterpretação dos seus temas centrais, transpostos para uma reflexão contemporânea sobre a arte, a perceção, a caminhada e o ato de subir.
A carta do poeta italiano descreve a sua subida ao Mont Ventoux como uma jornada física e, mais significativamente, como uma alegoria da ascensão espiritual e intelectual. A natureza é o cenário para um percurso interior do poeta, da escalada física da montanha (a sua ambição mundana inicial) a uma epifania motivada por uma leitura de Santo Agostinho – ao abandonar as distrações terrenas em busca de uma visão superior, a verdadeira ascensão torna-se espiritual.
Para a conceção desta exposição, apropriei-me da narrativa do poeta e dos elementos-chave que a compõem para criar uma outra realidade, uma experiência pessoal resultante do labor artístico. Tal como Petrarca, que enfrenta os desafios físicos da montanha, o meu trabalho criativo também é o resultado de uma jornada, o labor do processo criativo que envolve conhecimento, superação, persistência e a exploração de diferentes meios (fotografia, desenho, pintura).
A paisagem do Mont Ventoux, que na carta de Petrarca reflete a sua alma inquieta, torna-se para mim o ponto de partida para a criação de imagens que são simultaneamente documentação e reinterpretação do conceito de paisagem. As fotografias captam a realidade (a montanha e o ato de caminhar), enquanto os desenhos e as pinturas a filtram, mostrando como a perceção pode ser construída e transformada pela memória, pela emoção e pela intervenção artística.
O conflito entre o olhar objetivo sobre o mundo e a subjetividade da experiência é central em ambas as obras, mas diferente numa e noutra. Petrarca compara a sua contemplação da natureza com a introspeção de Santo Agostinho numa perspetiva dual, concluindo que a verdadeira paisagem a ser explorada é o seu próprio interior. De modo diferente, eu utilizo diversas linguagens artísticas para expor um trajeto entre a documentação da realidade (a fotografia) e a sua representação imaginada ou sentida (o desenho e a pintura).
Em ambos, a subida à montanha é uma metáfora para um aprofundamento, seja ele espiritual, no caso de Petrarca; ou artístico e reflexivo, no meu caso. Este ato, documentado e reprocessado artisticamente de forma lenta e refletida, opõe-se à “coisificação” da experiência humana, à velocidade e artificialidade das imagens digitais que circulam nas redes contemporâneas. Neste sentido, esta instalação poderá suscitar interrogações sobre as fronteiras entre o que é real e o que é representado, a topografia e a autobiografia, o finito e o infinito na nossa forma de ver, sentir e imaginar o mundo.