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Uma Vida Interior (1988)

Series Uma Vida Interior [An Interior Life] (1988)

   
 
 
Photographs  27,8 x 27,8 cm each



"Imagine-se um mundo de ninguém, obscuro e frio, perdido entre limites indecisos, confinando com nenhuma parte, mundo sem saída encerrado num espaço exíguo que se não pode pensar nem permite que se pense o que o cerca. [...] 
A exposição de fotografia de Valente Alves «Uma vida interior» introduz-nos à completude imperfeita que caracterizaria para nós – caso pudéssemos vê-lo – tal mundo imaginário: o interior de uma casa é retido nos reflexos que nele introduzem brilhos que lhe não pertencem, sem que possamos recusar-nos à impressão de que, se alguma intimidade foi devassada pelo olhar da câmara, foi a de um olhar do – e coextensivo ao – mundo. [...]
Trata-se de um «novo mundo» arcano, pelo qual perpassa uma sacralidade originária que os nossos símbolos do sagrado dificilmente poderiam representar sem devassar, ou mesmo destruir: escondido ainda por poderosas sombras, ele aparece-nos envolto por um sagrado segredo tecido de negritudes. Em algumas imagens, a casa fotografada dá-se a imaginar como a oficina de Deus, que os primeiros fulgores de uma luz apenas feita começam a banhar: o pagão ícaro ainda não nasceu e o esboço em pedra de um anjo sexuado espera do Supremo Artífice a decisão que nunca chegará sobre o futuro do seu género, enquanto que o estudo para um Adão de não menos nobre matéria parece esperar, um pouco abaixo do anjo, o sopro divino que não chegará a insuflar-lhe vida... porque Aquele, no devido momento, preferirá o barro, mais facilmente moldável à Sua imagem. Como se Deus que, fora, acaba de criar pela palavra uma luz de que não precisa viesse a perder dentro, apesar da sua omnisciência, o espectáculo da irrupção dos primeiros fulgores através das mais densas trevas."
(Pedro Miguel Frade, “Novo Mundo”, Jornal Expresso, Lisboa, 22 de Outubro de 1988)


"Imagine a world of no one, obscure and cold, lost between undecided boundaries, confined to nowhere, a dead-end world enclosed in a small space that can not think nor allow you to think about what surrounds you. [...]
Valente Alves's exhibition of photography «An interior life» introduces us to the imperfect completeness that would characterize for us - if we could see it - such an imaginary world: the interior of a house is retained in the reflections that introduce glitters that do not belong to it , without being able to refuse the impression that if some intimacy was overwhelmed by the look of the camera, it was a look of - and coextensive with - the world. [...]
It is an arcane "new world," through which the sacredness of our sacred symbols can hardly be represented without devastation or even destruction: still hidden by powerful shadows, it appears to us surrounded by a sacred secret woven of blackness In some images, the photographed house is imagined as the workshop of God, which the first glimmers of a light just made begin to bathe: the pagan Icarus has not yet been born and the stone sketch of a sexed angel awaits the Supreme Artificer the decision that will never come about the future of its kind, while the study for an Adam of no less noble matter seems to expect, just below the angel, the divine breath that will not come to inflate his life ... because He, in due course, will prefer the clay, more easily moldable to His image. As if God who, outside, has just created by the word a light that he need not lose in spite of his omniscience, the spectacle of the irruption of the first glimpses through the densest darkness."
(Pedro Miguel Frade, "New World", Jornal Expresso, Lisbon, October 22, 1988)



Exhibitions

1988
Uma Vida Interior, Clube Cinquenta, Lisboa
1989 Uma Vida Interior, Centro de Estudos de Fotografia, Coimbra



Selected bibliography

João Miguel FERNANDES JORGE, Uma Vida Interior (*.pdf)
Pedro Miguel FRADE, Novo Mundo (*.pdf)