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Le Temps Retrouvé (2001)

Series Le Temps Retrouvé (2001)

   
 

Cibachrome. 121 x 180 cm each


 

Partial views of the exhibition



"Manuel Valente Alves coloca as suas fotografias, ligando-as entre si, numa instalação iluminada por Marcel Proust. Através de Proust recoloca uma questão radical: o que pode ser ‘salvo’ quando tudo pode ser fixado? Mais ainda, a haver arte numa época da contingência total, ela está em jogo na tensão entre o registo total, a memória absoluta, e o gesto em que a obra surge.

A situação é grave porque as obras que fazemos compartilham do mesmo destino. De facto, se qualquer associação ou junção abole o acaso, apresentando-se como ‘obra’, o acaso acaba por absorvê-la. Na actual situação todas as ‘obras’ são de imediato submersas pelo acaso, circulando arbitrariamente, ao sabor das instalações, das críticas, dos museus, ou no vazio ao lado de tudo isto. [...]

O problema proustiano por excelência está em recusar a memória total, o registo de tudo. A patologia do acaso seria abolida ao ‘reter-se’ tudo. De facto, a memória total só pode ser a máquina. Uma máquina que fotografe sozinha é o bom exemplo disso, e é o que há mais. O mundo está a ser videografado, filmado, digitalizado. Cada máquina já tem um ‘framing incluído. Seria possível fotografar ‘tudo’, o movimento, incluído. É o cinemático que alimenta as máquinas, sobretudo as que visam a ‘animação’ da vida. Eis a vantagem absoluta das máquinas, mas também a sua debilidade de raiz. O que fazer da sua capacidade de ‘fixação’? Claude Simon disse algures: ‘Nenhum espírito humano pode guardar na memória aquilo que o olhar abraça durante umas dessas incessantes fracções de segundo que o tempo faz suceder a uma velocidade vertiginosa’. A vantagem da fotografia ‘é a de fixar, de memorizar aquilo que a nossa memória é incapaz de reter, ou seja, a imagem de algo que só teve lugar ou existiu numa fracção ínfima de tempo’. Mas a fixação de tudo equivaleria a ‘congelar’ o ‘real’. Ora, o humano é uma fixação que perde ou rarifica, salvando ‘tudo’, de outra maneira que não a técnica.

É isto mesmo que a faz da fotografia uma experiência verdadeiramente reveladora, contrariamente às outras artes. Estas últimas sempre trabalharam o simulacro, enquanto a fotografia trabalha a matéria (que todo o simulacro oculta). Uma frase esclarecedora de Pasternak: ‘Ninguém faz a história, não se pode vê-la, tal como se consegue ver a erva a crescer’. [...]

A lição de Proust, aduzida por Valente Alves, é essencial deste ponto de vista. Afinal de contas, Le temps retrouvé é sinal de que a escrita de Proust se tornou finalmente possível, que se tornou em 'quantidade enfeitiçada'. Era tudo o que ele desejava, essa é toda a sua ‘felicidade’. Nem ‘tempo reencontrado’, nem ‘procura do tempo perdido’, antes, como bem viu Nathalie Sarraute, procura do ‘tempo futuro’. Trata-se de abrir o presente, de inventar o tempo.

Quando Goethe diz ‘detém-te, belo instante’, diz a metade da ‘arte’, o parar e fixar, que anula o tempo, mas falta a outra metade. A ‘invenção do tempo’ no próprio momento em que este se anula. Em que este se cola à vida, se enrosca nela." 

(José A. Bragança de Miranda, “A Arte do Acaso”, in catálogo da exposição “Le Temps Retrouvé”, Galeria Luís Serpa, Lisboa, Junho de 2001)


"Manuel Valente Alves places his photographs, by connecting them to each other, in an installation illuminated by Marcel Proust. Through Proust he replaces a radical question: what can be 'saved' when everything can be fixed? Moreover, if there is art in a time of full contingency, art is on game in the tension between the overall record, the absolute memory, and the gesture in which the work appears.

The situation is serious because the works we do share the same fate. In fact, if any association or joint abolishes chance, presenting as 'work', chance will absorb it anyway. In the current situation all 'works' are submerged immediately by chance, circulatimg arbitrarily at the whim of facilities, critical, museums, or the empty on the side of all this. [...]

The Proustian problem par excellence is in decline the total memory, recording everything. The pathology of chance would be abolished to 'hold-up' everything. In fact the total memory can only be the machine. A machine that shoot alone is a good example of this, and is there more. The world is being videographed, filmed, digitalized. Each machine already has a 'framing' included. It would be possible to shoot 'all', the movement included. It is the kinematic feeding machines, especially those aimed at the 'animation' of life. Here is the absolute advantage of the machines, but also its root weakness. What to do with your ability to 'fixing'? Claude Simon said somewhere: 'No human spirit can store in memory what the look embraces during one of these incessant fractions of a second that time does succeed at breakneck speed'. Photography advantage 'is to fix, to remember what our memory is unable to retain, ie, the image of something that only took place or was a tiny fraction of time'. But the setting of all would be to 'freeze' the 'real'. Now the man is a fixation that loses or rarifies, saving 'all', otherwise than technique.

That's right that makes photography a truly eye-opening experience, unlike the other arts. The latter always worked the simulacrum, while the picture works the matter (which hides all the simulacrum). An illuminating phrase Pasternak: 'No one makes history, you can not see it, as you can see the grass grow. " [...]

The lesson of Proust, adducted by Valente Alves, is essential from this point of view. After all, Le temps retrouvé is a sign that the writing of Proust finally became possible, and it became 'bewitched quantity'. It was all he wanted, that's all his 'happiness'. Or 'time refound' or 'search of lost time' before, as well saw Nathalie Sarraute, searching for 'future time'. It is open the gift to invent time.

When Goethe says 'holds you, beautiful moment', says half of the 'art', the stop and fix that nullifies the time, but missing the other half. The 'invention of time' at the very time that this is canceled. In this clings to life, curls up in it."

(José A. Bragança de Miranda,"The Art of Chance", in the catalog of the exhibition "Le Temps Retrouvé", Luis Serpa Gallery, Lisbon, June 2001)





Exhibition
 
2001 Le Temps Retrouvé, Galeria Luís Serpa, Lisboa (integrated in the exhibition's cycle "2001: Time Odissey") [curator: Luís Serpa]


Selected bibliography

José A. BRAGANÇA DE MIRANDA, A arte do acaso (*.pdf) The art of chance (*.pdf)