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Hotéis (1991)

Series Hotéis [Hotels] (1991)

   
 

Photographs in sepia 49,2 x 183,2 cm each (with frame)






Hotel Victoria, Hotel Royal and Hotel President, in Gulbenkian Museum - Modern Collection, permanent exhibition, 2018





Hotel Plaza, Hotel Ambassator and Hotel Plaza, in Calouste Gulbenkian Modern Art Collection, CAMJAP, permanent exhibition, 2005  


Tomem-se os Hotéis de Manuel Valente Alves como um trabalho de síntese na obra longa do artista a partir dos seguintes tópicos:
1) O fazer confluir no registo da fotografia uma memória que vem da pintura através da metáfora da paisagem.
2) Continuar, nesse domínio, uma experimentação que é consequente com anteriores trabalhos em que pintura e fotografia foram utilizadas como meios destinados a exprimir um vocabulário autónomo não separado em géneros.
3) O cruzar-se da imagem com a palavra (a legenda) numa tradição que se poderia ainda (e ainda no campo da pintura) referir a Magritte.
4) O jogo conceptual que é decorrente do tópico anterior e que consiste em referir a um nome de conotação urbana e, mais do que urbana, cosmopolita, uma imagem que é indesmentivelmente campestre ou rural.
5) O haver-se, nesse jogo, a aliança de uma ironia de cariz romântico – reforçada pelo próprio uso da fotografia a sépia e da referência à paisagem desertificada e bruta na sua consistência telúrica – ao gosto da proposta minimalizante, o que por sua vez reforça ainda o carácter por assim dizer conceptual da proposta (projecto).
Tomando estes tópicos como alguns dos que imediatamente são suscitados pela contemplação destas imagens, haveria que referir ainda a presença constante da melancolia como um modo de “sentir o olhar”, na expressão de J. M. Fernandes Jorge. Nostalgia (romântica) de um mundo que perdeu o seu valor ideológico no contexto contemporâneo duplamente afirmada na paradoxal valorização, de hotéis de gosto e referência novecento, quando as cidades eram cidades e não aglomerados urbanos e tinham, também elas, um valor ideológico que W. Benjamin melhor que ninguém referiu no célebre texto sobre Paris enquanto capital do século XIX.
Ora a nostalgia é sempre referência a algo que se perdeu: neste caso, aquilo que se lamenta a perda – tanto quanto o lamentar seja a expressão por excelência da nostalgia – é o lento desaparecer das referências sólidas do imaginário moderno. Por essa razão a presente série de Manuel Valente Alves introduz a dimensão da temporalidade entendida quer no seu sentido histórico quer no seu sentido metafórico. O título da série, Hotéis, ao referir um espaço conotativamente, aplica-se no plano denotativo ao tempo. [...]
Será pois no plano de uma poética que se torna legítimo entender esta série de fotografias e o projecto que lhe subjaz. Poética que começa por se firmar no denominador da melancolia para depois (no sentido em que Rilke pôde dizer que a saudade é não ter pátria no tempo) se continuar na referência à palavra e ao uso da palavra enquanto matéria de desconstrução (do discurso) do sentido e de associar à imagem verbal (referencial neste caso pelo próprio peso da memória que os nomes dos míticos hotéis suscitam) a imagem propriamente visual que volta a descobrir a primeira, enquanto imagem
referencial, na medida em que a palavra é já imagem.
E nisso se revê uma linha de reflexão conceptual que no Magritte do “ceci n’est pas une pipe” se inaugurou deveras em matéria de matéria de pintura e que aqui regressa por um inteligente desvio que conota com outras memórias da arte deste século, implicitando a revisão de certas propostas de Richard Long ou Hamish Fulton.
Neste sentido a proposta do artista adquire uma extrema qualidade de ser contemporânea face ao que se joga no terreno da arte actual: como
representar a memória e o tempo, o espaço e a matéria ou, dito de outro modo, como representar o irrepresentável. 
(Bernardo Pinto de Almeida, “Da hotelaria como uma das belas artes”, Revista Colóquio Artes, Lisboa, no 99, Dezembro de 1993)


“Take up Manuel Valente Alves’s hotels as a work of synthesis of in the 
long work of the artist from the following topics:
1) To converge in the photography record a memory that comes from 
painting through the landscape metaphor.
2) To continue, in this area, an experimentation that is consequent with 
previous works in which painting and photography were used as means to
express an autonomous vocabulary not separated into genres.
3) The crossing of the image with the word (the legend) in a tradition that 
still could (and still in the field of painting) refer to Magritte.
4) The conceptual game that is due to the previous topic and that consists 
in referring to a name with an urban connotation and, more than urban,
cosmopolitan, an image that is undeniably country or rural.
5) To have, in this game, the alliance of an irony of romantic nature – 
reinforced by the very use of the photo in sepia and of the reference to the
desertified and gross landscape in its telluric consistency – the taste of 
minimal proposal, which on the other hand reinforces the character, as it
were, conceptual of the proposal (project).
Taking these topics as some of which are immediately raised by the 
contemplation of these images, it would be still referred the constant 
presence of melancholia as a way of ‘feeling the gaze’ in the expression of 
J. M. Fernandes Jorge. Nostalgia (romantic) of a world that has lost its 
ideological value in the contemporary context doubly affirmed by the 
paradoxical appreciation of Novecento reference hotels, when cities were 
cities and non-urban areas and they had, too, an ideological value that W. 
Benjamin better than anyone mentioned in the famous text on Paris as the 
capital of the nineteenth century.
Nostalgia is always a reference to something that has been lost: in this 
case, what laments the loss – as much as the lament is the expression of 
nostalgia for excellence – is the slow disappearance of the solid 
references of the modern imaginary. For this reason the present series of 
Manuel Valente Alves introduces the dimension of temporality understood 
both in its historical sense and in its metaphorical sense. The series title, 
Hotels, referring to a connotatively space, it is applied, in the denoting 
plan,to time. [...]
So, it will be on the plan of a poetic that becomes legitimate to understand 
this series of photographs and the project that underlies it.
Poetics that begins to establish itself in the denominator of melancholy 
and after (in the sense that Rilke could say that nostalgia is not having 
homeland in time) to continue in the reference to the word and the use of 
the word as a matter of deconstruction (of the speech) of the sens and of 
associating to the verbal image (referential in this case by its own weight 
from the memory that the names of the mythical hotels evoke) the visual 
image itself that come back to discover the first, as a referential image, in 
measure that the word is already image.
And in that is reviewed a conceptual reflection line that in Magritte's ‘ceci 
n'est pas une pipe’ was indeed inaugurated in the matter of the matter’s 
painting and here returns by an intelligent deviation that connotes with 
other art memories of this century, implicating the review of certain 
Richard Long’s and Hamish Fulton’s proposals.
In this sense the proposal of the artist acquires an extreme quality of being 
contemporary face to what is actually played in the art field: how to 
represent memory and time, space and matter or, in other words, how to 
represent the un-representable.”
(Bernardo Pinto de Almeida, “From 
hospitality as one of the fine arts”, Revista Colóquio-Artes, Lisbon, no 99, 
December 1993)


 
Exhibitions
 
1992 CAMJAP, Calouste Gulbenkian Fondation, Lisboa
1992 Lusitania, Circulo de Bellas Artes, Madrid [curator: M. Tereza Siza]
1993 Grupo Pró-Évora, Évora
1993 Galeria Imago-Lucis, Porto
1999 Linhas de Sombra, CAMJAP, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa [curators: Helena de Freitas, João Miguel Fernandes Jorge]
2006 Naturalis, Centro Cultural de Lagos, Lagos [curator: Leonor Nazaré]
2007 Transfert (integrated in the cultural forum "The State of the World, Fundação Calouste Gulbenkian), Museu Tavares Proença Júnior, Castelo Branco [curator: Leonor Nazaré]
2017 Portugal em Flagrante, Museu Gulbenkian, Lisboa [curator: Penelope Curtis]


Selected bibliography

João Lima PINHARANDA, Hotéis (*.pdf)
João Miguel FERNANDES JORGE,
Manuel Valente Alves (*.pdf)
Bernardo PINTO DE ALMEIDA,
Da hotelaria como uma das belas artes (*.pdf)
Carlos VIDAL,
Imaginação da paisagem (*.pdf)
Margarida MEDEIROS,
Viagem e memória das imagens (*.pdf)