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Donde vimos? O que somos? Para onde vamos? (1996)

Installation Donde vimos? O que somos? Para onde vamos ? [Where whe did come from? Who are we? Where are we going to?] (1996)

  

 
Views of the installation. Museu do Chiado, Lisboa, 1996


"Para um lugar que assume uma sala de Museu, [Manuel Valente Alves] convoca três personalidades que nunca se poderiam ter cruzado: Giorgione, através da sua célebre A Tempestade de 1509, Paul Gauguin, através do título de uma obra ausente de 1897, Bernard Hermann, através de uma fotografia que enquadra um texto de John Barry, publicado na Newsweek em 1995.
Cita-os pois mas com uma subtil variabilidade.
Giorgione, copiado em formato igual, é uma réplica oficinalmente construída sobre tela mas usando o acrílico e não o óleo como meio, o que impõe uma não evidente alteração de matizes e tons. E sobre a superfície da caixa de vidro que contém a obra instala-se uma perturbação desviante: não é A Tempestade mas Future Shock que a designa. Quanto à fotografia, a sua ampliação e isolamento do corpo da revista, que antes a normalizava, envolve-a numa cenografia, desviante também. Forra-a uma moldura de outdoor e chama-se Tempestade.

Sozinho, reduzido à letra, o título do quadro de Gauguin evocará para o amador o seu esplendor mas torna-se outra coisa: tão só o ‘sentido’ organizador deste puzzle de citações cruzadas, desenrolando e miscigenando funções, poéticas e técnicas. Ou seja, reinscrevendo-as num novo lugar que é o do próprio Valente Alves.

Por isso esta instalação, na sua clareza expositiva, é uma construção de terceiro grau: o primeiro definido pelas obras em si – um óleo, uma fotografia impressa em folha de revista, um título –, o segundo pelas apropriações que as reconstituem – os modos de apresentação, a troca de legendas, a descontextualização da frase de Gauguin –, o terceiro, finalmente, pelo significante que as une, recarregando todos os anteriores: o mundo é ameaçante mas o cerne dessa ameaça é na acção devastadora do poder que se concretiza. [...]

Com este trabalho prossegue Manuel Valente Alves um dos mais insistentes percursos da actualidade. Anular margens entre pintura e fotografia, e entre as imagens apropriadas de uma e outra, disseminar sentidos e poéticas, seleccionar e transpor meios plásticos, inscrever e transmutar sucessivas realidades num real outro que interroga as suas próprias transposições, re-situar a prática artística num espaço cultural amplo em que a palavra é um elo significante, e desse modo dotá-la de intencionalidade política, social e ecológica, tornam-no um encenador de uma dramaturgia celebrante e interventiva. Onde a público pode encontrar sinais de reconhecimento de si mesmo e da sua situação. E um repto para a acção." 
(Raquel Henriques da Silva, “Donde vimos? O que somos? Para onde vamos?”, catálogo da exposição Donde vimos? O que somos? Para onde vamos?, Museu do Chiado, Lisboa, Junho de 1996, português/inglês)


“For a place that assumes a museum room, [Manuel Valente Alves] convenes three personalities that could never be crossed: Giorgione, through its famous The Storm, dated of 1509, Paul Gauguin, through the title of a missing work of 1897, Bernard Hermann through a photo that frames a text by John Barry, published in Newsweek magazine in 1995. He quote them but with a subtle variation. Giorgione, copied in the same format, is a replica built manually on canvas, using acrylic and not the oil as a medium, which imposes no obvious change of hues and tones. And on the surface of the glass box containing the work [Manuel Valente Alves] installs is a deviant disorder: the name of the work it is not The Storm but Future Shock. In relation to the photograph, its expansion and isolation of the magazine body, before responsible for its normalization, involves the photography in a scenario of representation, also deviating. Chafer it an outdoor frame and is called Storm.

Alone, reduced to the literality, the title of Gauguin’s painting will evoke for the amateur its splendor, but it becomes another thing: exactly the ‘sense’ organizer of this puzzle of crossing quotes, unrolling and mixing functions, poetics and techniques. That is, re-inscribing these elements in a new place which is the one of Valente Alves.

So this installation in its exhibitioner sharpness, it is a third degree construction: the first defined by the works in itself – an oil, a printed photo in a magazine sheet, a title –, the second by the appropriations that reconstitute them – the modes of presentation, the exchange of legends, the de-contextualization of Gauguin’s phrase – the third, finally, by the signifier that unites them, reloading all previous ones: the world is threatening but the core of this threat is concretized  in the devastating action of the power. [...]

With this work Manuel Valente Alves continues one of the most insistent paths of today. To cancel merges between painting and photography, and between the appropriate images of one and the other, to spread senses and poetics, to select and transpose plastic media, to inscribe and transmute successive realities in an other real that interrogates its own transpositions, to re-situate artistic practice in a broad cultural space in which the word is a significant link, and thereby to provide it with political, social and ecological intentionalities, make it a director of a celebrant and interventional dramaturgy. Where the public can find signs of recognition of itself and its situation. And a call for action.”
(
Raquel Henriques da Silva, in: “Where do we come from? What are “Where do we come from? What are we? Where are we going to?”, we? Where are we going to?, exhibition catalog, Chiado Museum, Lisbon, June 1996, Portuguese/ English)






Exhibitions

1996 Donde vimos? O que somos? Para onde vamos?, Museu do Chiado, Lisboa
[curator: Raquel Henriques da Silva]
1999 Donde vimos? O que somos? Para onde vamos?, Casa da Cerca, Almada [curator: Leonor Nazaré]


Selected bibliography

Raquel HENRIQUES DA SILVA, Donde vimos? O que somos? Para onde vamos? (*.pdf)
Leonor NAZARÉ, Valente Alves - O Lugar de um Problema (*.pdf)
Eduardo PRADO COELHO, Alegorias do medo (*.pdf)
Francisco Rui CÁDIMA, Microfísicas da morte "limpa" (*.pdf)
Manuel VALENTE ALVES, Donde vimos? O que somos? Para onde vamos? (*.pdf)