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Cassandra (1992)

Series Cassandra [Kassandra] (1992)

 
  

Photographs in sepia 128,5 x 78,5 cm each (with frame)


"As subtis mudanças deste trabalho são mudanças radicais: perde-se a estabilização da linha do horizonte; cruza-se a especificidade da luz na fotografia com a tradição dos registos atmosféricos na pintura; a palavra integra a imagem não como legenda ou ilustração, mas como direcção interpretativa; a temática sugerida (o espaço e o tempo em que é inscrita) arrisca a capacidade de convocar, na obra de arte contemporânea, a dimensão do mito e do absoluto.

Dois meses depois de uma importante mostra no Centro de Arte Moderna (CAM), em Lisboa, Valente Alves apresenta imagens de base fotográfica que se podem considerar como feliz aprofundamento do anterior trabalho – radicalizando as suas opções conceptuais e visuais, o autor parece atingir o estatuto da maturidade, sem se deixar enredar nas armadilhas do esteticismo nem da discursividade.

O pretexto foi uma narrativa de Crista Wolf onde, a propósito da queda de Tróia e do estatuto social e psicológico da mulher, a análise dos elementos constitutivos da história de um corpo (e de uma alma) que caminha para a morte (que já lá está) é conduzida através da determinação de personagens chave e das suas relações com a protagonista. Valente Alves isolou, nessa constelação de personagens trágicos, os nomes de alguns homens: Príamo, Aquiles, Eneias, Páris, por exemplo. Não se trata de ilustrar um livro, mas de questionar a ponderabilidade desses nomes do mito, de os recolocar no sistema de valores que, como referente, funda a literatura ocidental.

Sabendo como o olhar funciona, na leitura de um texto, percebemos que somos levados a ler os nomes dos personagens, antes de vermos o céu que aleatoriamente lhes corresponde; aumentando o espaço entre a palavra inscrita e a foto colada, Valente Alves obriga à vertigem dessa "descida ao céu" e reforça a diversidade de estatuto dos dois elementos da imagem. A explicitação da diferença que já encontrávamos na realização manual (imperfeita) e posterior à impressão final das letras sobre o papel fotográfico é acentuada pela solução da "colagem”: a foto é colada sobre o suporte onde a palavra é escrita.

Os céus indeterminam o lugar e a altura da observação: pode ser hoje, amanhã ou ter sido há 25 séculos; pode ser aqui, nos antípodas ou no Egeu. A perda do horizonte e outros elementos de localização determinam a perda de propriedade (identificação e intransmissibilidade da imagem), a indeterminação da imagem (a similaridade de todos os céus) leva à sua universalização: o individual (o irrepetível) é transformado, através do irrelevante (os céus nublados todos similares) não apenas em absoluto fotográfico (como diz Rosalind Krauss referindo- -se a Stieglitz), mas em absoluto cultural.

Trata-se de garantir, através das imagens (céus/nomes), o que pretende Christa Wolf: visibilidade para os que não vencem, para os fracos, para os que correm "ao lado do grande rio das canções heróicas" (p. 103). Porque, como refere Cassandra na narrativa que a leva "para a morte" (p. 7): “A coisa derradeira será uma imagem nunca uma palavra. Antes das imagens morrem as palavras.” (p. 30) Wolf, Christa - Cassandra, Ed. Cotovia, Lisboa, 1991. Trad. João Barrento."
(
João Lima Pinharanda, “Na mudança de luz parece que se mexem”, Jornal Público, 8 de Maio de 1992)


“Subtle changes of this work are radical changes: lose the stabilization of the horizon; intersects the specificity of light in the picture with the tradition of atmospheric records in painting; the word is part of the image not as a legend or an illustration, but as a interpretative direction; the theme suggested (space and time where it is unscripted) risks the ability to summons, in the contemporary art work, the dimension of myth and absolute.

Two months after an important exhibition at the Modern Art Centre [Calouste Gulbenkian Foundation] in Lisbon, Valente Alves presents photographic base images that can be considered as an happy deepening of his previous work radicalizing his conceptual and visual options, the author seems to reach the maturity status, without being entangled nor in aestheticism nor in the discursivity traps.

The pretext was a Christa Wolf’s narrative where, inspired in the Trojan fall and social and psychological status of the woman, the analysis of the constitutive elements of the story of a body (and of a soul) walking to the death (which is already there) is conducted by the determination of key personages and of their relationship with the protagonist. Valente Alves isolated, in this constellation of tragic personages, the names of some men: Priam, Achilles, Aeneas, Paris, for example. The aim is not to illustrate a book, but to question the ponderability of these myth names, of reattaching them in the system of values that, as a referent, founds the Western literature.

Knowing us how the eye works, in the reading of a text we realize that we are led to read the names of the personages before seeing the sky that arbitrarily correspond to them; increasing the space between the word unscripted and the photo attached, Valente Alves obliges the vertigo of that ‘descent into the sky’ and reinforces the status of diversity of the two elements of the image. The explicitness of the difference that we already met in the manual (imperfect) drawing and after the final printing of the letters on the photo paper is accentuated by the solution of the ‘glue’: the photo is glued on the support where the word is written.

The sky indeterminates the place and the high level of the observation: it can be today, tomorrow or have been for 25 centuries; can be here in the antipodes or in the Aegean. The loss of the horizon and other location elements determine the loss of property (identification and non-transmissibility of the image), the indeterminacy of the image (the similarity of all the skies) leads to its universalization: the individual (the unrepeatable) is transformed, through the irrelevant (the overcast skies are all similar) not only in photographic absolute (as Rosalind Krauss said referring to Stieglitz), but in cultural absolute.

This is to ensure, through the images (skies/ names), the aim of Christa Wolf: visibility for those who do not win, for the weaks, for those who run ‘beside the great river of the heroic songs’ (p. 103. ). Because, as stated Cassandra in the narrative that takes ‘to death’ (p. 7): ‘The last thing will be an image, never a word. Before the images, die the words’ (p. 30) Wolf, Christa - Cassandra, Ed. Cotovia, Lisbon, 1991. Trad. João Barrento.” (João Lima Pinharanda, “In the changing of light it seems that they move”, Journal Público, 8 May, 1992)



Exhibitions

1992 Cassandra, Goethe Institut, Lisboa
1993 Imagens para os Anos 90, Fundação de Serralves, Porto
[curator: Fernando Pernes]
1993 Imagens para os Anos 90, Culturgest, Lisboa [curator: Fernando Pernes]

Selected bibliography

Bernardo PINTO DE ALMEIDA,
Resposta a Cassandra (*.pdf)
João Lima PINHARANDA, Na mudança de luz parece que se mexem (*.pdf)
Carlos VIDAL, Valente Alves (*.pdf)